14.2.12

Dia a dia, a dialética


Entre o bem e o mal
minha humanidade persiste
Entre o virtuoso e o profano
Meu coração insiste
Não posso (eu sei!) ceder ao autoengano
Nessa caminhada existencial
Não sou anjo, nem demônio:
Humano, e profundamente espiritual

Devoto de Jesus
miro seus passos
levo minha própria cruz
Na página da vida deixo meus traços
lutando pelo que é bom, suportando o  que mau
desatando mil embaraços
Com muito custo
vivendo e convivendo
Aprendendo até por susto
a provar as delícias da vida
Permitindo-me ser essa síntese
tão complexa e tão vívida
Equilibrando-me entre a liberalidade e a disciplina
vencendo a fraqueza e o medo
Dormindo tarde
acordando cedo
como é comum aos homens sem capital
amando e sendo amando
odiando e sendo às vezes odiado (imagino!),
tentando perdoar e ser perdoado
tristemente, ou alegremente (não consigo definir)
Aprendendo a dar passos firmes
Em todos os dias
reaprendendo a viver!

21.1.12

Prece























Deus,

Com a dificuldade que me é peculiar quando me ponho em oração, venho falar-lhe embora o Senhor de tudo já saiba previamente. Mesmo assim, sei que preciso; por isso faço, por isso falo, oro!

Quero conversar sobre espiritualidade, aliás, sobre isso que agora experimento e que, de certo modo, faz parte dela. Por mais que saiba o quanto me é precioso e saudável – em todos os aspectos – estar em estado de silêncio e meditação diante de Ti, a sós contigo, poucas vezes o faço. Não sei o que temo, não sei o que me impede, não entendo porque me distraio com tantas futilidades até que, enfim, depois de tanto pensar em te buscar, acabo diante de Ti.

Tenho tantas teorias sobre espiritualidade, já li tantos livros a respeito disso, ouvi tantas mensagens sobre, que não posso alegar falta de informação. No entanto, esse conhecimento nem sempre resulta em devoção. Pelo contrário, sinto que na maioria das vezes troco a refeição pelo cardápio.

Não quero que a espiritualidade seja apenas mais um tema de reflexão na roda de amigos, ou assunto de um texto bem elaborado e com argumentos intelectuais. Preciso que seja verdade em minha vida, preciso experimentá-la. Que seja como água pura e cristalina, fresca, bebida na fonte, como nas bicas das minas de água que escorrem entre as montanhas mineiras. Que seja uma experiência deliciosa de refúgio para a qual eu me lance como quem se rende. Uma atração que me domine e me leve a deixar a rotina urgente da vida (que nem sempre é tão urgente assim) para me dedicar à vida interior e encontrar-Te em mim, e a mim mesmo Contigo em meu coração! 

23.10.11

Das dores incompreendidas



Das dores do meu peito sei eu e Deus. Fora nós dois quase ninguém mais me compreende. Contudo, sinto-me em boa companhia. Afinal, mais incompreendido que Deus está para nascer. Quem, quantos, onde estão os que compreendem sua obra e planos? Alguns raros, muitos nem se encontram mais nessa terra... A verdade é que são poucos. Portanto, em Deus me acalento, desejando por vezes ir-lhe ao encontro. Porém, com sua firme mão, rejeita o meu “convidar-me” aos seus aposentos. Parece que me quer mais aqui, nessa terra seca, como um bambu que de tanto vergar-se muitos diriam “vai quebrar!”. Enfim, sigo vergando, plantado, firme, e esperando o consolo prometido. E vai-se a vida, e vão se as horas, os choros, as lágrimas e as saudades tristes... Estou passando com a vida...
                        

O amante












Regar uma flor
e vê-la crescer bela,
doce imitação do amor!

12.10.11

Ser tão mineiro


Ser tão mineiro é o que me faz assim,
poeta e sonhador,
um poço de melancolia e saudades sem fim
Amante das cidades,
apaixonado pelo sertão,
com poucas vaidades,
e um coração cheio de fé e tomado por devoção.
Em alguns casos sem dizer sim ou não,
em qualquer caso,
optando sempre por ponderação.
Com cara de matuto,
E um jeito acanhando,
Escondendo dentro de si um espírito arguto.
Ser tão mineiro é o que me faz assim,
tão triste e tão contente,
às vezes cabisbaixo
muitas outras, sorridente.
Ser tão mineiro... é o que me faz assim!

27.7.11

Textículos











pequenos textos
cuja virilidade verbal
singela, suscinta, não decepciona
deles germina vida,
semente pura que fertiliza
corações áridos sedentos de alívio poético.

20.5.11

Canto na metrópole (ou O Sabia II)

O Sabiá que não cessa o canto,
Resiste,
insiste,
Não quer partir,
permanece entre raras árvores e prédios de concreto pálido,
superando buzinas e freadas intermitentes em uma cidade que não sossega.
E ainda por cima canta,
(ou seria choro?).
Não sei bem definir. Mas encanta.
De repente (como que por magia) parece que a vida para,
os carros silenciam seu grunhido,
as vozes se calam.
E só se ouve um canto...
fino, suave, triste, desejoso,
vindo da alma de quem ouve o pássaro cantar.
Por fim, percebo:
Em teu canto, meu canto.
E quieto, no meu canto, me espanto
por ouvir em sua voz,
Minha alma em triste choro.

Miragens

Ao tocar-me a ausência do teu ser,
Percebo-me que me faltas. E quanta falta faz tua falta!
Falta-me teu aroma, não tenho também teu sabor.
Falta-me teu olhar suave, nega-me a distância também as tuas mãos.
Ando nu, sem vestir-me do tecido de teu corpo.
Não encontro morada, vago como cão perdido esperando te encontrar.
Como ave recém-nascida, preciso de ti para me aninhar nas noites frias.
Minha mente, intransigente, vagueia em miragens. Imagens.
Imagens de ti. Imagens de mim. Nós.
Perdendo-nos no encontro de nossas almas. Nossos corpos!
Que delícia!
Tua pele. Tuas formas. Tuas marcas, tuas manchas, tuas pintas, tuas sardas.
Uma profusão de beleza, de sabores, música palpável.
Canção de amor com notas degustáveis. Pintura em movimento. Uma loucura!
Ah, como queria agora desaguar em ti toda essa fervura.
Paciência, carência, renitência, ansiedade e ardência me possuem com indescritível intensidade.
Miragens. Imagens de ti em mim. Sempre, até que miragens se transformem novamente em Oásis.

19.4.11

A postulante


Deus tem todo o poder,
Até o de, por um dia inteiro, me escutar chorando
sem me infligir castigo.
tenho natureza triste,
comi sal de lágrimas no leite de minha mãe.
O vazio me chama, os ermos,
tudo que tenha olhos órfãos.
Antes do baile já vejo os bailarinos
chegando em casa com os sapatos na mão.
O jantar é bom, mas eructar é triste,
quase impoetizável.
Deverás, não há de banir-me
do ofício do Teu Louvor,
se até uns passarinhos cantam triste.

Adélia Prado, em A duração do Dia (Record)

13.2.11

Cântico pastoril

Para Suellen Ramos, também minha irmã

Entre a cidade e a roça,
Não titubeio nem fico na fossa.
Quero mesmo os campos quarados de capim e margaridas.
Quero um jardim sem fim pra eu me deitar,
e de perfume, o cheiro do mato, encher minhas narinas.
Quero a roça,
Não me importa se a vida será uma joça.
Vou andar a cavalo, e até de carroça
Essa vida, sim, é que é saborosa!

Poema-reza

Para Érika Ramos, minha irmã


Que Urucubaca!
Saravá treiz veiz.
Deus me guie e me guarde.
Hoje, agora, e toda veiz.
Por que com tanto azar
Imaginem,
Se em um balde eu entrar,
Não me admiro,
É capaz de eu me afogar.

1.2.11

Noite na roça
















Na fazenda,
Ninguém ousava,
Com os olhos no céu,
Toda boca se calava.
Contemplava.
Era verão, de noite estrelada.

Cidade cinza


Avistei o céu, não havia sol.
Nas nuvens, o cinza característico dos dias de chuva.
Nas ruas, vidas insossas encenando um filme repetitivo, chato.
Não havia cheiro, e se houvesse na seria bom, não tinha nenhuma flor por perto.
Só as nuvens cinzas, um céu sem sol;
Era a vida, circular, acontecendo sem data pra acabar.

24.1.11

Conselhos a ninguém

Seja sábio, não se gaste tentando ensinar quem não deseja aprender. Vive, experimente, prove, deleite-se no cotidiano inevitável de todos nós. Se quiserem, se notarem seu saber, se houver alguma alma sedenta, certamente hão de te procurar. Aí seja sábio, repasse apenas o que aprendeu em sua prática, fale apenas sobre o que lhe perguntaram, pergunte mais e permita que seus ouvintes aprendam por si mesmos. Conduza-os à reflexão redentora e não perca tempo se não se silenciam diante de sua voz. Se tagarelarem, cale-se, ouça-os e não fale mais! Lembre-se que não os procurou - pelo contrário.

18.1.11

Oração tudo ou nada

Se não posso ser pleno em ti, que eu passe a não ser-existir mais. Desisto de mim enquanto teu projeto. Desisto de teus planos e de tua vontade, desisto de manter-me adiante sendo que não pareço caminhar um passo só. Desisto!

Difícil é convencer-te a desistir de mim! Como podes insistir tanto assim?

9.12.10

Oração torta

Não paro para ouvir-te, Deus, porque não ouço nem a mim mesmo. Fujo da minha alma, distancio-me de meu próprio coração.

Estando perto, estou longe. Te querendo, te desprezo; te esperando, me desespero. Te amando, te aborreço. Te temendo, te desrespeito. Tudo, tudo simplesmente ao contrário do que deveria ser...

7.12.10

Oração do errante

Deus,

Saber-me em seus caminhos me trar-me-ia paz. Como saberei? Saber-me fora de seus caminhos, trar-me-ia direção, poderia dirigir-me ao retorno quanto antes e retomar a caminhada de onde me desviei.

Contudo, Senhor, não me sabendo nem dentro nem fora da sua vontade, o que farei? Ensina-me a ouvir sua voz, a entender seu querer, a perceber seu toque... Ensina-me a ser sensível a ti!

24.11.10

El remordimiento

He cometido el peor de los pecados
que un hombre puede cometer. No he sido
feliz. Que los glaciares del olvido
me arrastren y me pierdan, despiadados.

Mis padres me engendraron para el juego
arriesgado y hermoso de la vida,
para la tierra, el agua, el aire, el fuego.
Los defraudé. No fui feliz. Cumplida

no fue su joven voluntad. Mi mente
se aplicó a las simétricas porfías
del arte, que entreteje naderías.

Me legaron valor. No fui valiente.
No me abandona. Siempre está a mi lado
La sombra de haber sido un desdichado.

Jorge Luis Borges

15.10.10

O Sabiá














O sabiá sabia,
que em meio à minha tristeza,
seu canto me traz alegria.
Do alto da mangueira, tenor incomparável,
chora um canto charmoso.
Ou seria um canto choroso?
Não sei. Mas que canta, canta.
E que chora, ah, sim, ele chora!
E eu, de alegria ou tristeza, não importa, choro junto!
E meu rosto se hidrata com as lágrimas que caem,
e meu coração se irriga pela enxurrada de sentimentos que brotam em meu peito.
Não me importa se dói ou se me alivia,
canta sabiá, chora sabiá, não pare de cantar!

1.8.10

Guia sem rumo










Ai, ai, ai, coração!
Diz-me o que é certo,
Mostra-me o caminho,
Dá-me a direção!
Não sabes, suponho!
Tu também estás perdido,
Também te embriagas na dúvida,
Perdes-te a ti mesmo em tormento enfadonho.
Preso no meio,
Possesso pela incerteza,
Subjugado por estranha paralisia.
Estás também quebrado, fragmentado,
Entregue à inércia, vivendo de receio.
Não fujas de ti, não fujas de mim, não tente driblar teu destino.
Ah, coração... Quanta miséria em ti,
Melhor a ignorância da criancinha que a fartura de conhecimento e ideias,
Melhor não saber!
Melhor viver sem conhecer que viver em desatino.
Não sabes, suponho, não sabes teu caminho!
Não conheces teu destino!
Como, então, poderás guiar a mim, pobre coração?

15.7.10

Passar a régua e fechar a conta

E o medo que dá na gente de olhar “praqui” dentro da gente mesmo? Meu Deus, tem vezes que a gente se vê tão encardido de pecados e falhas que (parece) melhor nem abrir a porta do coração pra escarafunchar o que há nesse quarto bagunçado que a gente chama de alma.

A despeito disso, tem que ser... não dá pra viver a vida toda escondendo-nos de nós mesmos. Seja com quem for, sempre temos algum acerto de contas a fazer. Infelizmente ou felizmente (ainda não decidi), até com nós mesmos temos negócios pendentes.

A minha terapeuta já me indicou, é melhor fazer isso rapidamente. Quanto antes melhor! Ela não falou com essas palavras, mas eu entendi bem. Quanto menos tempo levarmos para passar a régua nas contas que existem em nosso íntimo, mais fácil será compreender a razão de sua existência e o porquê da necessidade de fechá-las e começar tudo de novo numa outra caderneta.

É fácil falar, difícil é fazer... Não é?

No mais é isso, bora lá então!

25.6.10

Nenhum valor

Olhos sem lágrimas,
Coração sem as dores da paixão,
Mente sem arrependimento,
Amor sem sacrifício,
Uma partida sem ardor,
Comida sem tempero,
Nada, nada disso tem algum valor...

12.1.10

Vou bem, e continuo indo



A sensação de ausência expressa, ou mesmo o sentimento de não-pertencimento a qualquer lugar que seja, aliado a paradoxal alegria de estar em qualquer lugar, põe alguns a se preocuparem comigo (talvez porque não notem esta última).

Amigos, não sou triste. Posso garantir que tristeza e alegria habitam minha alma com a mesma freqüência que o ar passa por minhas narinas. Considero perfeitamente normal. Ser humano é mesmo ser paradoxal, é não se encaixar nas amarras do objetivismo fatalista que dita: “Está triste, logo está mal.”

Estar triste pode ser estar bem. Ou mesmo estar bem de uma forma diferente, talvez piedosa (não que eu mesmo me julgue piedoso). Caso prático: ficar triste por um pobre mendigo e dispensar ajuda para tirá-lo de sua condição precária pode significar saúde espiritual (coisa boa). Por outro lado, a mesma coisa pode denotar soberba espiritual, aquele sentimento de quem ajuda por se ver maior, por se ver em outro patamar com condições de abaixar as mãos e levantar o outro.

Mas é de alegria e tristeza que eu falava. Pois bem, estou alegre hoje, no presente momento de minha vida; insatisfeito, contudo... Alegre por tudo que me vem às mãos, e por tudo que persigo e conquisto. Insatisfeito, sim, pela sensação constante de desconforto pessoal diante das mazelas que me acompanham. Maltrapilho, como alguns gostam de dizer... É isso que sou.

Daí a expectativa sempre esperançosa da redenção gloriosa de minhas enfermidades e deficiências.

Reitero, vou bem. E vou indo, em frente, para o alvo, sem ter, no entanto, tantos alvos assim. Mas convicto de que se há um alvo honroso a ser almejado, esse é o de apenas ser. Por tanto, estou me tornando a fim de poder ser.

18.11.09

Dormente


Minha dor mente,
Se esconde, diz que não é dor,
Que não é saudade,
Que não sofre da ausência.
Mentira!