17.9.17

Flor-de-urucum











Desta beleza sem fim
Admirador inveterado
Sou apenas mais um

26.7.17

Medo do medo

Os que têm medo.
A esses temei!
As pessoas tíbias, covardes,
Aquelas que fazem questão de ressaltar sua fragilidade
Temei-as!
Prudente é ter medo do medo que elas têm!
Esses seres de piedade pervertida,
Essas figuras que declamam a todo o tempo odes à conciliação
Suspeite-as, sempre!
Seus melhores inimigos te enfrentarão face a face
As suas piores armas te atingiram a fronte, o peito, teu ventre
Ao passo que os frágeis, os tímidos, os medrosos
Eles se disfarçam de santidade,
Suscitam uma bondade – falsa e nojenta
As tuas costas são sua maior obsessão
São cães traiçoeiros, víboras perniciosas
Rastejantes, deliciam-se nos encontros furtivos
Travestidos em seus melindres, delicadezas e gentilezas artificias
Espreitam, espiam de soslaio, com olhar furtivo e saliva peçonhenta
Ansiando nada mais, nada menos que as costas,
Sim, as costas. As minhas, as suas, as nossas

Desprotegidas costas!

19.2.17

Flor de cerejeira














Menina flor
Pétala rósea
Carente de amor

Nua e Crua

Não havia nada que eu quisesse mais do que mergulhar naqueles lábios rosados, quentes, úmidos.

Sentir o córrego que brotava como que das fendas de um penhasco. Saciar a sede!

Enquanto ela contorcia, destorcia, torcendo para eu jamais interrompesse o trabalho de meus lábios possessos de desejo, e eu venerava seu tormentoso prazer. Torturando sua carne alva e suave, que há muito me provocava.

Eu delirava em seus sabores. Me perdia no odor de seus aromas doces e crus, às vezes acres. Sepultava em seu corpo meus desejos envelhecidos, curtidos em meu ser como bebida etílica, destilada pelo fervor dos meu impulsos.

Ainda me visita, ainda hoje,  sua imagem nua, crua, temperada pela meia-luz de um quarto mixo, inadequado pra sua beleza mas que não ofuscaria jamais sua sensual luminosidade.

Ela nua, crua... Em minha mente amante do drama, em meus instintos perversos, os mais sacanas.












as casas encrustadas entre elas
as montanhas
e a vida que parece tão serena
ah, nas montanhas
a vida que parece tão pequena
entre essas montanhas
vida que parece tão rara
nas entranhas desse lugar
a vida parece mais vivida
nas montanhas de Minas!

Tantos quanto










Eu sou tantos
quanto os desejos
que moram em mim.
São tantos os desejos
quanto as ausências
que habitam meu corpo.
Sou insatisfação perene.
Querência sem fim!

13.1.17

Inoportuno Tempo














O tempo se esvai.
Como água rala, límpida e transparente,
escorre pelos meus dedos relutantes.
Tento dominá-lo, como a um cavalo bravo,
lançando sobre ele notas, avisos,
datações infindáveis de uma agenda perecível.
Inúteis recursos.
Como um selvagem potro,
coiceia-me o peito e a face.
Golpeia-me constantemente.
Selvagem…
indomável…
Sempre impiedoso...

30.10.16

Lentilhas










Gosto de lentilhas
Mas não precisa ser sopa
Melhor que não seja.
Prefiro mais ao dente
Com arroz
Fazendo as vezes do feijão, entende?
Bom que tenha bacon, calabresa
Essas coisas gordas que a gente de Minas adora
Sem se preocupar se o coração aguenta!
Aliás, aguenta!
Pois o coração aguenta divórcio
Aguenta golpe à democracia
Aguenta desamizade e solidão!
Como, pois, não aguentaria essa leve refeição?

16.5.16

Eras

Olho no espelho
Só vejo eras.
"Eras jovem,
eras magro,
eras belo,
eras saudável,
eras promissor...

14.2.16

Vomitório





















E eu lá tenho culpa que sou um poeta da rua,
Que filosofa no bar e dá lições de prosa na esquina
Da vida! Sofrida
Quem me dera não carregar o fardo de ser esse melancólico ser
Fosse eu católico, me confessava e pedia perdão
Tomava até a eucaristia, seu moço
Mudava os rumos
Protestante, me rebelo e nem faço questão
Quimeras me distraem
Comprometem o produto final
Mas eu sigo vomitando versos sôfregos madrugada a dentro
Aliviando a tensão
Escondido na penumbra
Depois amanhece e eu, como quem sai da catacumba, sofro
E já me disseram que a vida é passageira
É nada, essa coisa é mesmo um sopro
Respira enquanto dá, sabe-se lá quando isso tudo pode acabar
Ansiedade me fode
E eu lá tenho culpa?
Não faço questão, já nem peço perdão
Vê se pode
Se quem se explode sou eu
Cerveja quente não desce
Panceta rima com caneta (Ufa!)
Poema eu faço desse jeito, esculachado
Bem como me apetece
Não tive saco pra métrica
Quando uma vez eu tentei
Senti toda aquela violência – obstétrica!
Quase não nasceu o poeminha, tadinho
Coisa minha, não precisa anotar
Nem achar que tá certo
Você até num sabe, mas eu te conto
“Quando nasci veio um anjo safado
O chato do querubim
E decretou que eu estava predestinado
A ser errado assim”

8.2.16

Disintendidu

Entendi tudin
Sei nada não
Já sabia que entendia essa confusão
Perpétua névoa de um suave desvario
E assim sigo sabendo as ignorâncias que possuo
Sem mais nem porquê
Quem diria(!) que o menino branco também era pererê...
Vai por mim, tanta malandragem me deixou doidin
Por isso que às veiz eu ando tão suzin
Sem dizer pra onde vou
Nem mencionar quem sou
À sombra da ignomínia
Carregando aquela insígnia:
Pescador de borboletas!

26.1.16

Depressão














de pressa
hão
de me ver
correndo rumo
ao nada

16.1.16

Pluvial













Choveu sem dó e a chuva molhou
Minhas roupas, meu corpo, minhas coisas
Meus cadernos encharcaram
Perdi até minhas receitas (as médicas), empapadas...
Gelaram minha pele as frias gotas
Choveu também em meu peito,
e inundou meu coração.
Por conta disso anoiteci melancólico
Foi quando só chuviscava.
Demasiadamente débil, adormeci
sem hora para despertar.

Aconchego

Minha mão
                Segura
Meu coração
               Cuida 
Meus dias 
               Conta! 
Meu corpo 
               Possui 
Meus lábios 
              Toca 
Meus medos
              Exorcisa 

Aconchega esse meu eu

Abandono










Aos poucos se vão os que nunca estiveram
Lentamente me despeço dos que já haviam partido, e eu não sabia
Daqueles que esperei em vão, pois não vieram
Bebendo aos defuntos, benzo-me diante da morte,
acolho a angústia dos abandonos
Palavras ocas me enojam, olhares sem alma me enjoam
Irmanado da solidão, encontro abrigo entre os errantes
Aqueles que estavam, mas eu não via
Entre os bastardos da vida reconheci meu leito
Os renegados me acolheram, pelo que lhes sou grato
Que assim seja! Essa é minha herança.

19.12.15

Se Deus há

Se Deus é amor, e amor é liberdade, e o discurso de Deus é dos mais opressores, só pode haver Deus, se Deus há, onde o discurso de Deus não está ou, no mínimo, onde o discurso e experiência de Deus subverte a própria ideia de Deus.

15.5.15

"_________________"

Deus é uma fome que existe em mim 
É uma angústia que insiste 
Uma ausência plena de melancólica saudade 
Um desejo órfão da abundância de seios maternos
É um tudo repleto de nada 
Um vazio reverente que persiste 
A melodia doce que embala meus sonos tristes 
A prece relutante que resiste 
A oração que não quero fazer – mas faço escondido pra eu mesmo não ver 
A alegria que se esgueira pelas sendas da tristeza 
A paz e a dor que encontro em meio a toda beleza 
Deus é meu pranto, um lamento solitário 
É meu choro em desalento esperando em desespero.

25.3.15

Apofático

O amor, 
Prefiro não defini-lo. 
Pois o que dele dizer, 
Senão o que não vem a ser?
Dizer o que é,
é correr o risco de profaná-lo
com minha humanidade precária, pecadora.
Não o macularei,
Preservá-lo-ei de minhas toscas limitações.
Dele, apenas uma coisa afirmarei,
não é domesticável.

8.3.15

Transcendência














Não ousei proferir O Nome,
não tive coragem.
Fiquei tão constrangido,
apesar da imensa fome.
Fome do Nome.
Alguns O diziam,
e pareciam cães raivosos,
profanando-O enquanto o desferiam
contra pobres almas feridas.
Já eu, com meu peito rasgado,
busquei na aridez da minha alma
o Sopro sagrado.
Desejei a Presença.
Encontrei na Ausência,
um altar vazio.
Minha oração sem palavras,
e meus gestos silentes, inócuos?
Na aparente orfandade,
suspeitei da beleza que preenchia o vazio.
O próprio Nada,
era a Fome,
o Desejo,
que clamava pelo Nome.
No Desejo,
na Fome,
num sentimento de falta,
Ele mesmo era Fome e Alimento.
Era o próprio apetite a Presença,
falando por meio da Ausência,
anunciando-se em meia à Carência.
Transcendi,
e embora tenha resistido em dizê-lO,
respirei-O ritualisticamente.
Respeitei os recônditos vazios de meu ser.
Pois neles havia a Beleza,
Eram – os vazios – Ela própria.
Aliviei-me, sentindo uma brisa fresca de aroma perene.
Aquietei-me, e entendi.
Era o Silêncio quem melhor proferia a doce Palavra.
E nos meus vazios, Ela estava encarnada.
Fazendo-se bela pela justa razão de não ser pronunciada.

24.2.15

Breath










Teu suspiro
Eu inspiro
... E me alivio

Mundo sombrio
Me dá calafrio
... Eu me aflijo

Eu piro
Mas respiro
...Tua graça

Me laça
Faça e desfaça
... Eu aceito

Alegria mansa
Que me alcança
... Me surpreende

Um suspiro
 Me admiro
...Sopra em mim

Me alivio
Quase sorrio
... Paz enfim

Vem comigo!











Amigo
Bravo companheiro
Não me deixe só 
Vem comigo
Pois estou indo cantar
A ouvir os que choram
Vou indo me emocionar
Vem comigo
Pois vou indo chorar
A ouvir o canto dos oprimidos
E me emocionar
Não me deixe só
Sou mais um aflito
O mais afoito
E estou indo gritar em meio ao silêncio omisso
dos que não choram, não cantam,
E nem são oprimidos
Não me abandone, peço
A jornada é longa
Vem comigo
Pois estou só

15.2.15

Feliz Aniversário









À Jacqueline Emerich

A idade,
Pelo que me parece
A ti não faz efeito
Não te envelhece

Sinceridade?
Ao que me consta
Veio com o tempo
Maior docilidade

Esse jeito
Terno jeitinho
De me acolher em seu peito
Com todo carinho

 Explicação?
Amor que cresce
Bem de mansinho
Como bela canção

Meu carinho
Singelo presente
Sem ter o seu jeitinho
É te oferecer
Alegremente
Neste meu canto, toda admiração!

8.2.15

Jardiância

Foram tantas as rosas e os cravos pisoteados
que pareceu-lhe inútil seguir a regar o jardim.
Porém continuou, como se a canseira não lhe houvesse atingido.
Foi em frente, "por amor às causas perdidas".

6.1.15

O imoral

Em sua lista
O homem de moral
Elenca pecados
E falhas imperdoáveis
Geralmente tudo aquilo
Que só não lhe dá prazer
Porque não se permite fazer
Daí torce e se retorce por dentro
Ao imaginar, ao pensar!
Que possa haver no mundo
Em algum canto da terra
Alguem tão imundo
Que desfrute de prazer!

4.1.15

Mineirices











Tô indo festá
No meu recanto mineiro
Tô indo pra la
Comer pão de queijo caseiro
Café com bolo de fubá
Arroz e feijão tropeiro
Eu tô indo pra lá
Ouvir o virtuoso violeiro
Fazer a viola chorá
Vou descansar o dia inteiro
Curtir o canto do sabiá
Ah, eu to indo faceiro
Deixando os problemas pra lá
To indo ligeiro
Não vou me demorá

Idade

Vai idade
Não se pode segurá-la
Vem saudade

28.12.14

Permiso

Sê alvo de minha poesia
Permita-se
Permita-me
E vou te desenhar em versos
Te cantar em prosa
Vou navegar na imagem do seu corpo
Me perder no misterioso labirinto de sua existência
Para então encontrar nas doces palavras a ti escritas
As trilhas ocultas do prazer e da alegria

Tudo por me permitires te poetizar
Não mais que isso
Não mais que a licença poética
Para exalar meus versos frouxos
Desritmados e enlouquecidos
Anárquicos e desmetrificados
Portadores de uma sabedoria que só a loucura tem
Dotados de uma alegria que encontra em teu riso a imagem gêmea
Portanto, sorri
Não pra mim, pra vida
Pra ti, de mim, no encontro e na despedida
Para que a poesia não cesse em brotar
Segue o curso da vida
E permite que, como folhas navegando no leito do rio
Minha poesia pegue carona na fluidez de tuas belezas
Permita-me
Permita-se adiante, que te sigo em poemas e prosa
Em sonhos e realidades
Em tempo e em fora de tempo
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