16.5.16

Eras

Olho no espelho
Só vejo eras.
"Eras jovem,
eras magro,
eras belo,
eras saudável,
eras promissor...

14.2.16

Vomitório





















E eu lá tenho culpa que sou um poeta da rua,
Que filosofa no bar e dá lições de prosa na esquina
Da vida! Sofrida
Quem me dera não carregar o fardo de ser esse melancólico ser
Fosse eu católico, me confessava e pedia perdão
Tomava até a eucaristia, seu moço
Mudava os rumos
Protestante, me rebelo e nem faço questão
Quimeras me distraem
Comprometem o produto final
Mas eu sigo vomitando versos sôfregos madrugada a dentro
Aliviando a tensão
Escondido na penumbra
Depois amanhece e eu, como quem sai da catacumba, sofro
E já me disseram que a vida é passageira
É nada, essa coisa é mesmo um sopro
Respira enquanto dá, sabe-se lá quando isso tudo pode acabar
Ansiedade me fode
E eu lá tenho culpa?
Não faço questão, já nem peço perdão
Vê se pode
Se quem se explode sou eu
Cerveja quente não desce
Panceta rima com caneta (Ufa!)
Poema eu faço desse jeito, esculachado
Bem como me apetece
Não tive saco pra métrica
Quando uma vez eu tentei
Senti toda aquela violência – obstétrica!
Quase não nasceu o poeminha, tadinho
Coisa minha, não precisa anotar
Nem achar que tá certo
Você até num sabe, mas eu te conto
“Quando nasci veio um anjo safado
O chato do querubim
E decretou que eu estava predestinado
A ser errado assim”

8.2.16

Disintendidu

Entendi tudin
Sei nada não
Já sabia que entendia essa confusão
Perpétua névoa de um suave desvario
E assim sigo sabendo as ignorâncias que possuo
Sem mais nem porquê
Quem diria(!) que o menino branco também era pererê...
Vai por mim, tanta malandragem me deixou doidin
Por isso que às veiz eu ando tão suzin
Sem dizer pra onde vou
Nem mencionar quem sou
À sombra da ignomínia
Carregando aquela insígnia:
Pescador de borboletas!

26.1.16

Depressão














de pressa
hão
de me ver
correndo rumo
ao nada

16.1.16

Pluvial













Choveu sem dó e a chuva molhou
Minhas roupas, meu corpo, minhas coisas
Meus cadernos encharcaram
Perdi até minhas receitas (as médicas), empapadas...
Gelaram minha pele as frias gotas
Choveu também em meu peito,
e inundou meu coração.
Por conta disso anoiteci melancólico
Foi quando só chuviscava.
Demasiadamente débil, adormeci
sem hora para despertar.

Aconchego

Minha mão
                Segura
Meu coração
               Cuida 
Meus dias 
               Conta! 
Meu corpo 
               Possui 
Meus lábios 
              Toca 
Meus medos
              Exorcisa 

Aconchega esse meu eu

Abandono










Aos poucos se vão os que nunca estiveram
Lentamente me despeço dos que já haviam partido, e eu não sabia
Daqueles que esperei em vão, pois não vieram
Bebendo aos defuntos, benzo-me diante da morte,
acolho a angústia dos abandonos
Palavras ocas me enojam, olhares sem alma me enjoam
Irmanado da solidão, encontro abrigo entre os errantes
Aqueles que estavam, mas eu não via
Entre os bastardos da vida reconheci meu leito
Os renegados me acolheram, pelo que lhes sou grato
Que assim seja! Essa é minha herança.

19.12.15

Se Deus há

Se Deus é amor, e amor é liberdade, e o discurso de Deus é dos mais opressores, só pode haver Deus, se Deus há, onde o discurso de Deus não está ou, no mínimo, onde o discurso e experiência de Deus subverte a própria ideia de Deus.

15.5.15

"_________________"

Deus é uma fome que existe em mim 
É uma angústia que insiste 
Uma ausência plena de melancólica saudade 
Um desejo órfão da abundância de seios maternos
É um tudo repleto de nada 
Um vazio reverente que persiste 
A melodia doce que embala meus sonos tristes 
A prece relutante que resiste 
A oração que não quero fazer – mas faço escondido pra eu mesmo não ver 
A alegria que se esgueira pelas sendas da tristeza 
A paz e a dor que encontro em meio a toda beleza 
Deus é meu pranto, um lamento solitário 
É meu choro em desalento esperando em desespero.

25.3.15

Apofático

O amor, 
Prefiro não defini-lo. 
Pois o que dele dizer, 
Senão o que não vem a ser?
Dizer o que é,
é correr o risco de profaná-lo
com minha humanidade precária, pecadora.
Não o macularei,
Preservá-lo-ei de minhas toscas limitações.
Dele, apenas uma coisa afirmarei,
não é domesticável.

8.3.15

Transcendência














Não ousei proferir O Nome,
não tive coragem.
Fiquei tão constrangido,
apesar da imensa fome.
Fome do Nome.
Alguns O diziam,
e pareciam cães raivosos,
profanando-O enquanto o desferiam
contra pobres almas feridas.
Já eu, com meu peito rasgado,
busquei na aridez da minha alma
o Sopro sagrado.
Desejei a Presença.
Encontrei na Ausência,
um altar vazio.
Minha oração sem palavras,
e meus gestos silentes, inócuos?
Na aparente orfandade,
suspeitei da beleza que preenchia o vazio.
O próprio Nada,
era a Fome,
o Desejo,
que clamava pelo Nome.
No Desejo,
na Fome,
num sentimento de falta,
Ele mesmo era Fome e Alimento.
Era o próprio apetite a Presença,
falando por meio da Ausência,
anunciando-se em meia à Carência.
Transcendi,
e embora tenha resistido em dizê-lO,
respirei-O ritualisticamente.
Respeitei os recônditos vazios de meu ser.
Pois neles havia a Beleza,
Eram – os vazios – Ela própria.
Aliviei-me, sentindo uma brisa fresca de aroma perene.
Aquietei-me, e entendi.
Era o Silêncio quem melhor proferia a doce Palavra.
E nos meus vazios, Ela estava encarnada.
Fazendo-se bela pela justa razão de não ser pronunciada.

24.2.15

Breath










Teu suspiro
Eu inspiro
... E me alivio

Mundo sombrio
Me dá calafrio
... Eu me aflijo

Eu piro
Mas respiro
...Tua graça

Me laça
Faça e desfaça
... Eu aceito

Alegria mansa
Que me alcança
... Me surpreende

Um suspiro
 Me admiro
...Sopra em mim

Me alivio
Quase sorrio
... Paz enfim

Vem comigo!











Amigo
Bravo companheiro
Não me deixe só 
Vem comigo
Pois estou indo cantar
A ouvir os que choram
Vou indo me emocionar
Vem comigo
Pois vou indo chorar
A ouvir o canto dos oprimidos
E me emocionar
Não me deixe só
Sou mais um aflito
O mais afoito
E estou indo gritar em meio ao silêncio omisso
dos que não choram, não cantam,
E nem são oprimidos
Não me abandone, peço
A jornada é longa
Vem comigo
Pois estou só

15.2.15

Feliz Aniversário









À Jacqueline Emerich

A idade,
Pelo que me parece
A ti não faz efeito
Não te envelhece

Sinceridade?
Ao que me consta
Veio com o tempo
Maior docilidade

Esse jeito
Terno jeitinho
De me acolher em seu peito
Com todo carinho

 Explicação?
Amor que cresce
Bem de mansinho
Como bela canção

Meu carinho
Singelo presente
Sem ter o seu jeitinho
É te oferecer
Alegremente
Neste meu canto, toda admiração!

8.2.15

Jardiância

Foram tantas as rosas e os cravos pisoteados
que pareceu-lhe inútil seguir a regar o jardim.
Porém continuou, como se a canseira não lhe houvesse atingido.
Foi em frente, "por amor às causas perdidas".

6.1.15

O imoral

Em sua lista
O homem de moral
Elenca pecados
E falhas imperdoáveis
Geralmente tudo aquilo
Que só não lhe dá prazer
Porque não se permite fazer
Daí torce e se retorce por dentro
Ao imaginar, ao pensar!
Que possa haver no mundo
Em algum canto da terra
Alguem tão imundo
Que desfrute de prazer!

4.1.15

Mineirices











Tô indo festá
No meu recanto mineiro
Tô indo pra la
Comer pão de queijo caseiro
Café com bolo de fubá
Arroz e feijão tropeiro
Eu tô indo pra lá
Ouvir o virtuoso violeiro
Fazer a viola chorá
Vou descansar o dia inteiro
Curtir o canto do sabiá
Ah, eu to indo faceiro
Deixando os problemas pra lá
To indo ligeiro
Não vou me demorá

Idade

Vai idade
Não se pode segurá-la
Vem saudade

28.12.14

Permiso

Sê alvo de minha poesia
Permita-se
Permita-me
E vou te desenhar em versos
Te cantar em prosa
Vou navegar na imagem do seu corpo
Me perder no misterioso labirinto de sua existência
Para então encontrar nas doces palavras a ti escritas
As trilhas ocultas do prazer e da alegria

Tudo por me permitires te poetizar
Não mais que isso
Não mais que a licença poética
Para exalar meus versos frouxos
Desritmados e enlouquecidos
Anárquicos e desmetrificados
Portadores de uma sabedoria que só a loucura tem
Dotados de uma alegria que encontra em teu riso a imagem gêmea
Portanto, sorri
Não pra mim, pra vida
Pra ti, de mim, no encontro e na despedida
Para que a poesia não cesse em brotar
Segue o curso da vida
E permite que, como folhas navegando no leito do rio
Minha poesia pegue carona na fluidez de tuas belezas
Permita-me
Permita-se adiante, que te sigo em poemas e prosa
Em sonhos e realidades
Em tempo e em fora de tempo

18.12.14

Pondera

Me ofereceu as pílulas
Elas me levaram os poemas tristes 
As canções chorosas 
Os textos sensíveis 
A melancolia que me impelia a criar 
A nostalgia dos lugares que não sei 
“Ostra feliz não faz pérola”, 
me avisava o pássaro encantado 
“Não existe coisa mais triste que ter paz”, 
Disse o poetinha 
Que massada... 
Quanta pobreza essa sobriedade 
Ai, saudade 
Dos versos sôfregos 
Do choro fácil 
Do coração rasgado de amor 
De dor
Do peso das dores da vida 
Acho que vou parar – paroxetina. 
Como um estranho em mim mesmo 
Me vejo com saudade de mim!

16.11.14

Amores Selvagens

Delicioso porque proibido. Proibido porque inviável. Inviável pelos desencontros e arranjos inesperados da vida. Amores bandidos, e justamente por serem bandidos excitantes. Avassaladores! Selvagens… 

Selvagens, talvez essa seja a melhor definição. As paixões inviáveis certamente escondem algo mais profundo que o próprio sentimento afetivo ou desejo sexual. Talvez apontem para a dimensão indomável que habita em nós. Dimensão que reluta em existir, pois fomos domesticados pela evolução da consciência. Em tese, devemos reprimi-la. Posto que revela nossa animalidade, os nossos “instintos mais sacanas” (Humberto Gessinger).

E é justamente isso que se ama (que amamos)! “Não amamos a pessoa, mas o símbolo que ela representa” (Rubem Alves). Amamos o que passamos a ser diante do ser amado. Disso é feito o amor selvagem. A paixão não requer o conforto nem o descanso. Ela clama pelo fogo, pelo vendaval. Elementos não domesticados que remetem aquilo que outrora fomos – ou pensamos que fomos. 

A vida cansa. O cotidiano enfada. A idade nos aborrece. Assim, vez e outra saímos em busca do “sagrado selvagem” (Bastide). Sagrado? Sim, não somente a religião oferece transcendência, as relações também. O sexo também. Sair de si, fundir-se noutra pessoa, corpo e alma. Transcendência!

 A fé e o amor instituído não nos bastam. Por isso, saímos à procura de um eu adormecido. Acordamo-lo não para que se sobreponha definitivamente. Afinal, somos domesticados. Domesticamo-nos e daí em diante somos essa síntese que se debate entre o conforto e a aventura, o amor e a paixão, a necessidade e o desejo, a calmaria e a tempestade. 

Em nós, finito e infinito se fundem, temporal e eterno se encontram numa aparente contradição perturbadora (Kierkegaard). Perturbando acima de tudo aqueles que não recepcionam em paz essa condição existencial. Por isso os matemáticos enlouquecem, enquanto os poetas se apaixonam uma vez mais. Se os primeiros desejam resolver as torturantes equações da vida, os últimos simplesmente as aceitam como dádiva surpreendente que os permitem ser várias pessoas em uma só. 

E eventualmente queremos ser aquela pessoa tomada de coragem e movida pela paixão, a pessoa que somos quando estamos ao lado do ser amado. Esse amor selvagem! Nesse intervalo de tempo, quando a vida parece parar a fim de que vivamos o inesperado, sentimo-nos inteiros como nunca, vivos como os imortais, destemíveis como os deuses. Esse tempo quase mítico passará, pois tudo passa. Mas não importa! Importa o momento. O tempo chamado hoje. Que se torna eterno pois “tudo o que a memória amou já ficou eterno” (Adélia Prado). 

Doménico Silvestre

29.4.14

Atrevida virtude













Poucas coisas são tão atrevidas quanto a esperança
Por isso os críticos dizem aos que a possuem: “Loucos!”
Os amargurados: “Tolos!”
As personalidades mórbidas: “Malditos”
Raros, entretanto, são os que se mantém vivos sem ela.

Por não ser espírita












Injusto é viver uma vez só
Seriam necessárias mais uma ou cinco vidas
Para podermos aprender a viver
Uma vida somente para se aprender
As outras para conseguir acertar

3.1.14

Os versos de Doménico





Depois que Eliodora partiu. Doménico se refugiou em sua casa entre as montanhas e lá se silenciou. Poucos o viam fora de seu retiro. O que sabiam dele vinha de alguns versos seus escritos em papel sulfite, que ele eventualmente esquecia debaixo de um pé de jacarandá. Lá ele parecia meditar. Ou realizava preces. Alguns de seus empregados diziam que lá ele conversava sozinho. Eram eles – os empregados – que salvavam seus escritos da chuva e do sol. Levavam-nos à mercearia do seu Alfonso. Lá eram lidos e comentados nos finais de semana, quando os poucos roceiros que viviam na redondeza se reuniam para beber, conversar e jogar.


Não havia quem não gostasse do que lia. Aliás, apenas o Marien os lia, era o único plenamente alfabetizado. Lia em voz alta, para que todos ouvissem. Alguns desses versos eram afixados num mural, competindo com cartazes de festas de santo e anotações esgarranchadas das apostas feitas pelos jogadores de sinuca.


O primeiro poema pregado no bar, fora o Rubem que encontrou. Depois de lido por Marien, ficou exposto no mural para quem quisesse averiguar:

Lembra dos pássaros que anunciavam a aurora enquanto desejávamos que a noite não acabasse?

E o cansaço? Que só vinha quando já não tínhamos mais a presença um do outro...
Me recordo . E sinto saudade. Lembro do gosto suave de beijos calientes.
E sinto a ausência dos dias em que desejava mais a escuridão da noite que o dourado brilho da manhã.
Fiz uma prece e roguei que a eternidade não deixasse de tocar a realidade cruel. 
Por que tantos desencontros? 
Fazemos nossas trilhas ou o destino já traçou os caminhos em que nos perderíamos? 
Talvez seja impossível saber se cabe aos mortais cambiar as sentenças aparentemente já proferidas nos tribunais da vida. 
Não se mostra gloriosa a dura insistência dos relutantes sonhadores. 
Os céticos a veem e zombam. Porém, quem são os céticos?
Alguns sábios os identificaram como pobres amargurados que desistiram de tentar por medo de se frustrar. 
Talvez sejam apenas criaturas com défice de amor. Cuja vida se tornou tão árida que não lhes resta outro ofício que não o de menosprezar a insistência alheia. 
Sim, é inglória insistência dos amantes; pois, sim, é a relutante memória que nos conduz a confusos labirintos. 
Ao vento fresco que toca o rosto, me perco em um tempo que pode não ter sido. Qual tempo? Esvaio-me em dezenas de miragens que se juntam formando um complexo labirinto emocional. 
Perplexo, respiro e tento descanso, sabendo que desse labirinto não sairei tão já, se de fato, dele, um dia sairemos. 



Doménico Silvestre

29.10.13

Latente

Quando a tristeza me possui, vem sempre com aquele tom familiar, quase que dizendo "estive sempre aqui, por que te espantas?" 
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