16.11.14

Amores Selvagens

Delicioso porque proibido. Proibido porque inviável. Inviável pelos desencontros e arranjos inesperados da vida. Amores bandidos, e justamente por serem bandidos excitantes. Avassaladores! Selvagens… 

Selvagens, talvez essa seja a melhor definição. As paixões inviáveis certamente escondem algo mais profundo que o próprio sentimento afetivo ou desejo sexual. Talvez apontem para a dimensão indomável que habita em nós. Dimensão que reluta em existir, pois fomos domesticados pela evolução da consciência. Em tese, devemos reprimi-la. Posto que revela nossa animalidade, os nossos “instintos mais sacanas” (Humberto Gessinger).

E é justamente isso que se ama (que amamos)! “Não amamos a pessoa, mas o símbolo que ela representa” (Rubem Alves). Amamos o que passamos a ser diante do ser amado. Disso é feito o amor selvagem. A paixão não requer o conforto nem o descanso. Ela clama pelo fogo, pelo vendaval. Elementos não domesticados que remetem aquilo que outrora fomos – ou pensamos que fomos. 

A vida cansa. O cotidiano enfada. A idade nos aborrece. Assim, vez e outra saímos em busca do “sagrado selvagem” (Bastide). Sagrado? Sim, não somente a religião oferece transcendência, as relações também. O sexo também. Sair de si, fundir-se noutra pessoa, corpo e alma. Transcendência!

 A fé e o amor instituído não nos bastam. Por isso, saímos à procura de um eu adormecido. Acordamo-lo não para que se sobreponha definitivamente. Afinal, somos domesticados. Domesticamo-nos e daí em diante somos essa síntese que se debate entre o conforto e a aventura, o amor e a paixão, a necessidade e o desejo, a calmaria e a tempestade. 

Em nós, finito e infinito se fundem, temporal e eterno se encontram numa aparente contradição perturbadora (Kierkegaard). Perturbando acima de tudo aqueles que não recepcionam em paz essa condição existencial. Por isso os matemáticos enlouquecem, enquanto os poetas se apaixonam uma vez mais. Se os primeiros desejam resolver as torturantes equações da vida, os últimos simplesmente as aceitam como dádiva surpreendente que os permitem ser várias pessoas em uma só. 

E eventualmente queremos ser aquela pessoa tomada de coragem e movida pela paixão, a pessoa que somos quando estamos ao lado do ser amado. Esse amor selvagem! Nesse intervalo de tempo, quando a vida parece parar a fim de que vivamos o inesperado, sentimo-nos inteiros como nunca, vivos como os imortais, destemíveis como os deuses. Esse tempo quase mítico passará, pois tudo passa. Mas não importa! Importa o momento. O tempo chamado hoje. Que se torna eterno pois “tudo o que a memória amou já ficou eterno” (Adélia Prado). 

Doménico Silvestre

29.4.14

Atrevida virtude













Poucas coisas são tão atrevidas quanto a esperança
Por isso os críticos dizem aos que a possuem: “Loucos!”
Os amargurados: “Tolos!”
As personalidades mórbidas: “Malditos”
Raros, entretanto, são os que se mantém vivos sem ela.

Por não ser espírita












Injusto é viver uma vez só
Seriam necessárias mais uma ou cinco vidas
Para podermos aprender a viver
Uma vida somente para se aprender
As outras para conseguir acertar

3.1.14

Os versos de Doménico





Depois que Eliodora partiu. Doménico se refugiou em sua casa entre as montanhas e lá se silenciou. Poucos o viam fora de seu retiro. O que sabiam dele vinha de alguns versos seus escritos em papel sulfite, que ele eventualmente esquecia debaixo de um pé de jacarandá. Lá ele parecia meditar. Ou realizava preces. Alguns de seus empregados diziam que lá ele conversava sozinho. Eram eles – os empregados – que salvavam seus escritos da chuva e do sol. Levavam-nos à mercearia do seu Alfonso. Lá eram lidos e comentados nos finais de semana, quando os poucos roceiros que viviam na redondeza se reuniam para beber, conversar e jogar.


Não havia quem não gostasse do que lia. Aliás, apenas o Marien os lia, era o único plenamente alfabetizado. Lia em voz alta, para que todos ouvissem. Alguns desses versos eram afixados num mural, competindo com cartazes de festas de santo e anotações esgarranchadas das apostas feitas pelos jogadores de sinuca.


O primeiro poema pregado no bar, fora o Rubem que encontrou. Depois de lido por Marien, ficou exposto no mural para quem quisesse averiguar:

Lembra dos pássaros que anunciavam a aurora enquanto desejávamos que a noite não acabasse?

E o cansaço? Que só vinha quando já não tínhamos mais a presença um do outro...
Me recordo . E sinto saudade. Lembro do gosto suave de beijos calientes.
E sinto a ausência dos dias em que desejava mais a escuridão da noite que o dourado brilho da manhã.
Fiz uma prece e roguei que a eternidade não deixasse de tocar a realidade cruel. 
Por que tantos desencontros? 
Fazemos nossas trilhas ou o destino já traçou os caminhos em que nos perderíamos? 
Talvez seja impossível saber se cabe aos mortais cambiar as sentenças aparentemente já proferidas nos tribunais da vida. 
Não se mostra gloriosa a dura insistência dos relutantes sonhadores. 
Os céticos a veem e zombam. Porém, quem são os céticos?
Alguns sábios os identificaram como pobres amargurados que desistiram de tentar por medo de se frustrar. 
Talvez sejam apenas criaturas com défice de amor. Cuja vida se tornou tão árida que não lhes resta outro ofício que não o de menosprezar a insistência alheia. 
Sim, é inglória insistência dos amantes; pois, sim, é a relutante memória que nos conduz a confusos labirintos. 
Ao vento fresco que toca o rosto, me perco em um tempo que pode não ter sido. Qual tempo? Esvaio-me em dezenas de miragens que se juntam formando um complexo labirinto emocional. 
Perplexo, respiro e tento descanso, sabendo que desse labirinto não sairei tão já, se de fato, dele, um dia sairemos. 



Doménico Silvestre

29.10.13

Latente

Quando a tristeza me possui, vem sempre com aquele tom familiar, quase que dizendo "estive sempre aqui, por que te espantas?" 

21.8.13

Sincretismo

Sincrética é a alma, por isso meu "eu" constitui-se em vários! E dentre meus "eus", o que mais me encanta é o que mais distante de mim está!

9.7.13

A vida como ela é

Nascer, ruptura
Viver, ruptura
Morrer, ruptura
Que é esta vida, senão um constante romper?
Infinitas despedidas, incessantes adeus.

6.7.13

Valediction

“Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!”
Fernando Pessoa 

Foi-se em silêncio, 
Não mais argumentou, 
Calou-se diante do inexorável. 
Cantou pela última vez em memória dos dias felizes. 
Não chorou – visivelmente! 
Aceitou seu destino (como se ele existisse). 
Não podia resistir ao adeus, 
Deus o sabia que não poderia. 
Foi ao encontro de água fresca e vento suave, 
Para refrigerar a alma e aliviar as dores do peito. 
Um sabiá cantava distante, 
Fora como um sinal, um revival; 
Por segundos, esperou rever o objeto da sua saudade, 
Mas não, era só um canto solitário de um sabiá que 
Teimara em seguir cantando mesmo fora de época. 
Voltou os olhos ao chão, 
Respirou fundo, enchendo os pulmões de ar 
E seguiu em frente, para não mais voltar...

Promessas insanas

Uma pessoa nunca deveria prometer coisas eternas à outra. Seja paixão eterna, amor sem fim, seja fidelidade ou outro bem imaterial desse tipo. Em relação aos nossos sonhos, nobres desejos ou ideais de vida, somos precários. Precários, sim, porque inconstantes, limitados, dúbios. Não somos eternos, por tal razão não nos é possível prometer a eternidade. Estamos distantes do que ansiamos...

Deus é eterno, por isso pode prometer bens incorruptíveis. Nós, o máximo que podemos esperar, é a imortalidade, pela graça de desfrutar da eternidade de dele. Mas retomando acerca das promessas, quantas besteiras prometemos e nos são prometidas. Especialmente nos casos em que somos avassalados pela paixão flamejante. Oferecemos, inconsequentemente, nossas almas a outrem. Sem tomar conhecimento de que estamos, em verdade, ludibriando-nos e a esta pessoa também. Algo podemos oferecer, sim, com alguma paz e tranquilidade na alma: “tentar”. De fato, podemos tentar, esforçadamente, perseverantemente ofertar aquilo que prometemos ou desejamos prometer; o que passar disso são palavras, apenas palavras soltas ao vento.

Ioaquim Domingus

Desperdício de energia

O Facebook está para a produção intelectual/acadêmica assim como a masturbação está para o sexo. Com a masturbação, gasta-se energia mitigando o desejo ao invés de satisfazê-lo plenamente. Com o Facebook e suas postagens, gasta-se energia aliviando o incômodo intelectual -- que certamente desembocaria em produção! -- por meio de reles postagens e comentários superficiais.

Ioaquim Domingus

Livre, como pássaros



Acredite sempre no amor livre, sim, como os pássaros. Mas não se esqueça de encher seu jardim de frutas, sementes e água fresca, para que seu pássaro jamais se retire do seu alcance.

Doménico Silvestre

22.3.13

Liberum


Quem disse que não se pode parar antes da chegada?
Acenar antes da despedida...
Repousar antes de o sol se pôr...
Dizer amém antes do fim da prece?
Quem?

Defesa

O poeta jamais é mentiroso. É, no máximo, hiperbólico.

28.2.13

O problema de Vandinho

Vandinho estava apaixonado pela primeira vez, estranhava aquela sensação avassaladora. E ele bem sabia o que significava essa palavra. Estava se tornando um vassalo. Vassalo do sentimento, dependente da pessoa desejada, dos pensamentos involuntários que percorriam sua mente em momentos impróprios e – o pior – do medo de não conquistar o bem maior de ter o objeto de sua paixão ao seu lado.

O garoto sabia que precisava de ajuda. Não relutou, foi ao encontro de seu tio materno, o Robério. Psicanalista respeitado na sua pequena cidade, até com alguns livretos publicados (de forma independente, impressos na Gráfica do Sr. Alfonso), o tio mais admirado da família certamente poderia ajudá-lo a vencer tal condição.

Estando na casa de Robério, que o chamou ao escritório, a fim de não expor o menino ao resto da família, contou tudo o que se sucedia (em sua vida e, especialmente, em seu coração).

- Ah, então meu querido sobrinho está apaixonado! – Exclamou o tio psicanalista alçando o tom da voz. Ao que Vandinho se enrubesceu, mas confirmou, acenando com a cabeça morrendo de vergonha.

Robério não era de rodeios, se ajeitou na cadeira por trás da escrivaninha na qual se punha a estudar os casos de seus pacientes, e olhando fixo nos negros olhos do sobrinho, perguntou:

- Qual versão você gostaria de ouvir sobre o que está acontecendo com você, uma explicação realista ou literária?

Vandinho franziu a testa, sem entender, mas imaginou que algo realista certamente deveria ser mais apropriado. Até porque ele não havia entendido bem o que significaria uma “versão literária”, e estava acanhando demais para perguntar.

- A realista, Tio! – respondeu com firmeza pela primeira vez.

Robério não poupou a inocência do menino, descreveu criteriosamente o que chamou de “armadilha da evolução em prol da perpetuação da espécie”. A síntese dessa sua versão era simples: o pobre garoto, assim como muitos outros de sua idade, estava entrando na fase propícia para procriar, ao que seus instintos começaram a se manifestar; estimulando-o a se vincular à uma parceira. Para daí, então, copular com ela e, obviamente, gerar sua própria prole.

- Vandinho, você está sendo guiado por seu corpo para contribuir com a preservação da espécie humana! – declarou o tio, ao final da explanação, com uma aparência de imensa alegria.

O coitado menino, que havia ouvido de seu melhor amigo que aquilo tudo era algo especial, mágico, e que iria mudar sua vida para sempre, baixou o semblante logo após a fala do tio. Ao que tudo indica, esperava escutar algo que o motivasse a seguir em frente e, obviamente, o instigasse a experimentar algo realmente maravilhoso.

Quando caminhava na rua em direção à sua casa, pensou que talvez fosse melhor ter escolhido a segunda opção. 

Partida

Parto para nunca mais
Despeço-me para jamais voltar
Mas levo em meu peito seu amor
Deixo gravada em minha mente
A imagem incomparável do seu riso
Os ecos da sua voz ressoarão na primavera
Junto ao canto dos sabiás
E o que dizer da luz de teus olhos?
Essa candeia cor turquesa
Vê-la hei no brilho da Lua
Ai, ai de mim que não terei mais
Sua beleza nua
Que sonharei nas noites frias
Com o calor do seu corpo oblíquo
Vagarei pelos corredores de meu casarão
Como alma penada
Feito um vulto lúgubre
Sem rumo certo na vida
Meu espírito partido,
Abatido mas relutante
Espera o alívio de te encontrar pelo caminho
Talvez em um parque florido
Num dia de domingo
Ou num bar à beira de uma esquina
Em plena quarta-feira de cinzas
Voltando de uma prece
Ou até recompondo-se dos longos bailes de Carnaval
Ai de mim, ai de mim
Que parto para nunca mais!

Doménico Silvestre

6.2.13

Fantasiando
















Às vezes eu penso que a mamãe Tico-Tico sabe,
Que ele não se enganou totalmente
Ao chocar ovos d’outros.
Que ao passar do tempo, ao ver nascer cada negra pena
No corpinho de sua querida choca,
Que ao ver sua cria se tornando bem maior do que ela mesma,
Assinalando um inconfundível contraste,
Que ela sabe e insiste na bondosa tarefa de cuidar da prole alheia.
Perdoando a violenta traição da senhora Chupim,
Que, de tão malandra e preguiçosa, botou seus ovos em ninho estranho,
Outorgando, sem anuência, à pobre Tico-Tico a desgastante função de mãe de aluguel.
Às vezes, só às vezes, esses pensamentos ingênuos e fantasiosos visitam minha cabeça.

4.2.13

Receita de tranquilidade

Respiro,
inspiro, 
repito, 
inspiro,
respiro, 
assim eu não piro...

*











Estou me procurando faz tempo
mas sinto que perdi o endereço.
Na idade em que estou,
já não é permitido perder-se.
Adultos devem sempre saber
muito bem os caminhos a percorrer.
                    ...

Como somos chatos e previsíveis!

Quando eu te beijar

Quando eu te beijar,
Te quero assim, silente 
Em seus olhos, a timidez azul das águas calmas 
De um mar adormecido 
Quando eu te beijar, 
Te quero quente, 
Em sua boca, a timidez ardente do desejo incontido 
Quando eu te beijar, 
Que não seja um sonho, inocente 
Mas realidade cálida que não se poderia conter. 

Doménico Silvestre

3.1.13

*

Perdoe-me, amor
Minha poesia é cheia de saudade
Meu suspiro eivado de dor
Meus cânticos tomados pela fatalidade

Dá-me teu carinho
Dá-me teu afeto
Acolha-me em teu ninho
Deixa sempre teu coração aberto

Não vais me salvar da tristeza
Nem tirarás de minh'alma a constante agonia
Mas certamente tua alva beleza
Conceder-me-á algum alívio e calmaria

Alívio, calmaria... 

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