22.7.08

Sobre jardineiros e jardins

Havia um jardineiro e, claro, havia também o seu jardim. Só que este jardineiro era iniciante, um amador na arte do cultivo das plantas. Arte esta que, diga-se de passagem, é mui fascinante e complexa – basicamente um relacionamento, pode-se dizer. Sim, relacionamento... jardineiro bom é aquele que sabe se relacionar com suas plantas.

Este era aprendiz. E, saiba, o pobre coitado não tinha a sensibilidade comum aos sábios mestres da jardinagem. Ele estranhava as reações das suas flores, não conseguia encontrar os melhores adubos e regava-as às vezes em demasia, às vezes insatisfatoriamente.

Passado algum tempo, o jardineiro observou a mudança das suas tão jovens flores. Ah, elas tinham um rosto abotoado, suas folhas não mais estava viçosas e o cheiro perdeu o seu aroma fresco, perfumoso, que ele adorava inalar todas as manhãs; era primeira coisa que fazia, acordava e se dirigia aos fundos da casa, onde se encontrava a seu mais recente prazer: o jardim.

Ao notar a mudança de aparência das flores, ele também mudou. Perdeu o prazer de estar entre os suspiros, desgostou-se de passar seus dedos nas azaléias, desprezou as samambaias. Pensou que a mudança era pessoal. A única coisa que conseguia sentir era ira. Certamente aquelas plantas eram esnobes e arrogantes, rejeitaram-no como jardineiro. Não queriam que ele continuasse a ser seu cuidador! Insolentes...

Não soube interpretar a fala das flores. Não pode interpretar suas faces tristes e nem seu pedido de ajuda. Não pode ele entender que precisava aprimorar seu estilo de poda. Aprender a aparar corretamente uma planta é como saber dar um vestido a uma mulher, pode-se alegrá-la imensamente, como também frustrá-la. Afinal, seu corpo é que está em jogo... Não sabia tocar em suas folhagens, suas pétalas não eram tangidas com amor... Elas sentiam e se negavam a continuar sendo tocadas. Não aprendera a regá-las devidamente. A água não é saborosa, diferente de um bom vinho, contudo em momentos de sede a provamos como néctar dos deuses. Água demais enche; água de menos resseca! Ele não compreendera a simplicidade da vida existente em seu horto particular...

O jardineiro não sabia jardinar. Era aprendiz só no nome, pois não se dispôs a aprender. Não conhecia a sensibilidade das plantas, frustrou-se ao tentar se relacionar com elas e frustrou-as também.

Não há jardim bonito sem estímulo do jardineiro. Digamos que os jardins têm o rosto do seu cuidador. As flores, tímidas que são, reagem docilmente aos gestos e à poesia do toque gentil daquele que as ama. Tudo depende de quem cuida...

O pobre homem em questão decidiu abandonar seu posto. Não soube conquistar o sorriso faceiro das flores do seu próprio jardim, e por isso não fora mais presenteado com perfumes celestes, amostras do paraíso. Mal sabia ele que o jardim agora era a sua imagem, ele imprimira suas feições tristes e sem brilho naquilo que tocou.

Cansado de se ver no espelho, sem saber que seu canteiro falava mais sobre ele do que imaginava, abandonou-o. Outro passou a tomar conta... fracassou em ser aquilo que todo homem foi chamado para ser: jardineiro, cultivador, cuidador de vidas.
É, dizem por aí que jardinagem e relacionamentos interumanos tem tudo a ver. Deve ser verdade...

Se isso for mesmo certo, arrisco-me a dizer que todos nós – sem distinção – somos jardineiros-aprendizes; mas certamente, vez e outra, acabamos sendo jardim...

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