18.7.07

A negra que vi

Não parei de pensar naquela negra que estava
com sua criancinha, bem a frente da biblioteca.
Pobre, suja e fugida...
Ela mirou seu olhar em mim e logo se esquivou.
Acho que é a vergonha, coitada.

Pobre mulher...
Mirei meu olhar nela, mas fugi ...
Antes que o meu sentimento de vergonha e incapacidade
Tomassem conta da minh’alma.
Eu, faminto, fui pegar um “livro-pão”: poesia para alma;
Ela, esfomeada, esperava por algo mais sólido:
Pão francês, broa, arroz e feijão, ou talvez abraços... calor humano, que sabem!?
Aquela negra ainda está lá... sabe-se Deus onde!
Na minha mente,
Ela ainda está na frente da biblioteca, com sua negrinha, novinha ainda, pobre neném.
Exposta ao mundo como pintura medonha, esquecida e vista como um ninguém.
Olho para ela com o “rabo do zóio”,
Não encaro sua face,
Pois, na verdade, sei que a seu rosto sujo,
Desleixado, cheio de ignomínia é meu próprio rosto.
Temo olhar para ela pois não tenho coragem de me olhar em reflexos
Tão concretos.
Não quero me aproximar, temo minhas mazelas, meus pecados...fragilidade.

Não olhamos... nunca queremos olhar frente a frente alguém assim.
Escondemos nossa face permanentemente para as negras e suas filinhas
Abandonadas pelo mundo à sorte.
Fingimos não ver o pobre, o mendigo, a vida real.
Em vão gritamos: “Justiça!”
Não queremos justiça...queremos nosso bem, o mais... é puro remorso e fantasia.

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